Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

Transe Xamânico

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POSTURAS QUE LEVAM AO INFINITO
Ao estudar imagens de antigos povos tribais, a antropóloga Felicitas Goodman descobriu que determinadas posições corporais eram utilizadas por xamãs e pajés para provocar o transe espiritual. A partir daí, ela recuperou essa técnica e vem aplicando-a com sucesso. Neste artigo, Jacques Vroemen - um ex-materialista convicto que experimentou o método na prática - relata o que viu na terra dos xamãs.
Por Jacques Vroemey

Nos anos 70, os livros de Carlos Castañeda fascinavam muitos que estavam com vontade de abandonar uma época racional demais com seus fenômenos colaterais, horrivelmente irracionais. O mestre de Castañeda, o índio xamã Don Juan, se recusava a ver "duas realidades" diferentes como campos separados. E assim Castañeda chegou à conclusão de que a realidade invisível é a outra face, sempre presente, da realidade exterior, objetiva, e que os sonhos noturnos são muitas vezes sombras de um campo de experiência rejeitado, onde se pode andar por caminhos diversos e ir mais além.

Há alguns anos, conheci a antropóloga americana Felicitas Goodman.
Com ela aprendi como entrar num outro nível de consciência, ficando durante algum tempo na mesma posição. Nesta situação se vê - sem drogas - um mundo que não conseguimos enxergar em estado normal da consciência. Tal estado pode ser comparado à experiência dos sonhos, mas fica-se totalmente desperto e pode-se sair e entrar dele de forma voluntária, registrando-se os acontecimentos.
A gente se prepara para a "viagem" através de exercícios respiratórios - um método praticado durante milhares de anos pelos xamãs para induzir o transe. Enquanto se
fica sempre na mesma postura, se ouve um tambor ou matraca - co-nhecido na literatura como o "navio" ou "cavalo" do xamã.
Durante um seminário para nos ensinar a técnica primordial da "viagem da alma", falávamos sobre nossas experiências e impressões do “outro mundo", e Felicitas Goodman nos explicou que o mundo dos velhos mitos se abrira para nós... Encontramos cenários, animais e plantas também descritos nos contos de fada. Era a terra dos xamãs, e a viagem para lá traz bem-estar e energia às pessoas.

Em seus seminários, primeiramente Felicitas trabalhava com as técnicas já conhecidas. A idéia de que também a postura do corpo seria muito importante surgiu pela primeira vez quando ela observava e comparava imagens e esculturas de
povos tribais tradicionais. Por que, perguntava ela, os xamãs, pajés e sacerdotes foram freqüentemente apresentados nas mesmas posturas, sempre se repetindo? Será que se tratava de posturas corporais usadas para provocar o transe?
Felicitas testou a hipótese com a ajuda voluntária de estudantes da Ohio State University, e as experiências confirmaram sua idéia.
Baseando-se em comparações de métodos xamanistas de vários povos, Felicitas Goodman chegou á conclusão de que a indução de um transe através de uma determinada posição corporal relaciona-se a uma sabedoria universal. Na Lapônia e com os índios inuit (esquimós), do noroeste do Canadá, ela encontrou os mesmos métodos para induzir a "viagem da alma". Os druidas celtas e os gregos também conheciam esses métodos. A professora descobriu ainda a mesma posição do corpo num desenho de um xamã-caçador nas cavernas de Lascaux e numa representação da divindade egípcia Osíris.
As experiências que tivemos no seminário de Felicitas não eram apenas interessantes do ponto de vista etnológico, mas também psicológico. Minhas viagens pelo subconsciente me deram uma idéia muito melhor das camadas mais profundas de minha consciência. Ali não está escuro como muitos pensam, apenas misterioso, e encontramos muitas máscaras. Os "espíritos" não podem se mostrar a nós de outro modo para não nos prejudicar. Mas, acima de tudo, podemos encontrar nesse mundo nossos aliados, nossos ajudantes espirituais.
Surpreendentemente, encontrei meu primeiro aliado quando, de volta à fria Holanda, decidi outra vez fazer uma "viagem". Desde então, o aliado aparece como uma pantera negra, e não lembra nem um pouca o gatinho branco que vive comigo a realidade de todos os dias. Inúmeras imagens das chamadas culturas "primitivas" mostram que panteras, pumas, pássaros e plantas se oferecem como ajudantes às pessoas viajando no "além-mundo".
Cada postura diferente do corpo influi especificamente no tipo de transe. Algumas, por exemplo, mostram ao xamã onde sua tribo pode encontrar alimentação e caça; qual a causa de um problema social ou de saúde; ou em que local erguer uma nova construção.

No último verão, durante uma sessão, Felicitas Goodman pedimos para convidar os "espíritos" a nos ajudar na execução de uma dança de máscaras.
Nós nos encontrávamos numa kiva, a sala de meditação tradicional dos índios.
A realidade se transformou. A sala se expandiu até um tamanho bem maior, onde se achavam muitos outros viajantes. De repente, entendi que os espirites dos índios que já viviam nesse lugar nos acompanhavam. Enquanto estávamos sentados num círculo, esperançosos, ouvi alguma coisa no telhado. Pensei que fosse um galho qualquer, mas ali não existem árvores e eu sabia que não estava ventando. De repente, estava fora da kiva. Pássaros gigantes vindos das montanhas se aproximavam. Alguns já estavam sentados em cima do telhado, e outros estavam enfeitando o espaço entre as poucas casas de adobe. Estava tudo fantástico: eles catavam grandes arco-íris do horizonte, estendendo-os sobe a região. Realmente a dança seria uma grande festa.
Fiquei, porém, decepcionado quando a maraca que nos acompanhava parou de repente. Sem essa companheira de viagem, era difícil e desaconselhável - demorar por mais tempo naquele estado de consciência. A kiva assumia novamente
suas proporções normais, os pássaros haviam desaparecido e não se ouvia mais nada vindo de fora.
No dia seguinte choveu um pouco - como é costumeiro em agosto no Novo México - mas apareceram dois arco-íris completos. Eu nunca vira coisa igual. Como postura básica de nossa viagem escolhemos uma originária dos povos siberianos, denominada ali de chiltan, ou "chamada dos espíritos". Bem, os espíritos vieram realmente! Outras pessoas que participavam da sessão tinham visto as entidades de uma forma diferente, muitas vezes como animais, figuras luminosas ou sonoras, ou também como vaga-lumes enormes.
Semanas depois, li um artigo do etnólogo Michael Harner sobre suas primeiras experiências com esse transe e fiquei muito surpreso: grandes pássaros negros se aproximaram dele, escreveu. Harner achou que eram os "mestres do universo", mas seu companheiro, um xamã jívaro (tribo amazônica), ria dele: "Eles sempre pensam que são", disse. É preciso saber orientar-se no mundo dos espiritos para entender que também ali existem hierarquias e que nem todos os espíritos se encontram num nível mais elevado do que os seres humanos. Tampouco são bons ou maus. Podem ser úteis ou perigosos, sendo necessária muita experiência para poder discriminá-los.
As técnicas de transe para a cura são muito importantes na vida dos povos tradicionais. Com a ajuda da "postura urso", tive a primeira experiência de transe que me levou a ver a matéria que estava estudando - a antropologia das culturas - de um ângulo totalmente diferente.
Durante anos, tudo foi confrontado com material etnográfico, contendo informações sobre outros povos - em geral, uma mistura de imagens e textos. Já que essas imagens eram para nós, estudantes, totalmente incompreensíveis, nos textos se tentava dar explicações. Mas, infelizmente, tais explicações vieram de pessoas também ignorantes em relação à cultura em questão. Quem pega na mão uma obra desse tipo - sobre arte africana ou oceânica - encontra sempre explicações do tipo: "Imagens dos ancestrais são usadas durante o ritual da colheita." O que me impressionou muito mais do que a explicação superficial foi a expressão das imagens, mostrando o estado de ser em que o artista se encontrava e do qual ele queria transmitir algo ao observador. E assim cheguei à conclusão de que minha primeira impressão estava certa: esse tipo de arte popular tem uma função específica!
Mesmo assim, me senti bastante incomodado quando Felicitas me fez adotar durante meus primeiros seminários a "postura do urso", que ela descobrira em representações artísticas de muitos povos do hemisfério norte. O urso, também chamado de "avô urso", surge nos mitos dessas culturas como o curandeiro de uma outra realidade.
Deve-se, no caso, imitar todas as posturas-transe exatamente como representadas na imagem ou escultura. Até a posição exata dos dedos é bem visível naquelas imagens. A expressão do rosto de uma figura também mostra que tipo de "viagem" se fará, adotando-se aquela postura.
Ficamos em pé, de olhos fechados, num círculo, esperançosos, a cabeça inclinada um pouco para trás, as mãos juntas de uma certa maneira, em frente do corpo, quando a matraca começou a se manifestar. No início, com muita curiosidade, divertido, ouvi os grãos duros sendo sacudidos dentro da cabaça.
O ritmo suave da matraca me levou para uma viagem. O som da cabaça estava agora dividido em dois: um som mais baixo ao lado de um mais alto, sons graves e agudos, ou cheios e pesados ao lado de sons leves. Sentias como as ondas de duas águas, onde podia mergulhar se quisesse. Ao mesmo tempo algo se abriu sobre mim, irradiando calor.
Como era pequeno em comparação a tudo ao meu redor! Estava num barco, era gostoso ser levado observando, olhando para cima; sabia que estava deitado no porão de um navio. Mas aí descobri que não estava num navio, e sim dentro de uma baleia. Vi as poderosas costelas do animal me levando pelos oceanos do mundo.
A sensação de se deixar levar daquela maneira por um animal gigantesco é impossível de descrever. Cada onda causada pelos movimentos da cauda da baleia parecia um mar em si. Pinóquio e Jonas devem ter conhecido aquela sensação: de ser muito pequeno, pequeníssimo, e por isso mesmo bem protegido. Não só o quarto em que me encontrava se expandia, também o tempo era muito mais longo do que o tempo do relógio. Minha viagem dentro da baleia parecia durar uma eternidade.
A matraca silenciara e nós nos sentamos de novo num círculo, como se fosse combinado. A praia onde fui jogado como um Robinson Crusoe, contente de sé encontrar na sua ilha, parecia um tapete macio.
Agora sei que o êxtase é muitas vezes descrito de modo espetacular demais. Eu pessoalmente tive uma experiência de êxtase comparável a um delicioso passeio de carro pelas montanhas. Olhei para os outros. O que lhes teria acontecido?
As experiências deles pareciam as minhas, mas muitas eram bem mais movimentadas. Sem dúvida alguma, a qualidade das imagens e experiências dependem do ponto de partida do transe. Um terço dos meus companheiros descreveram o "grande espaço ao meu redor", por exemplo, não como uma baleia, mas como um enorme urso: tocavam na pele macia do bicho, viram suas patas enormes, sua boca e seus olhos. O animal se inclinava sobre eles, abraçando-os, protegendo-os.
Quando mais tarde folheei meus livros do tempo de estudante, vi uma imagem do "avô-urso" e seus dentes grandes me lembravam as costelas da minha baleia.
Todos nós nos sentíamos surpresos com a realidade da experiência e alguém descreveu detalhes como um animal passando, uma cadeia de montanhas, ou um túnel. Porque, em geral, a gente só percebe uma pequena parte de tudo. Somente nas conversas depois da experiência, todas as percepções individuais se ajuntam para formar um mosaico.
Quase todos falavam depois de um certo sofrimento de que já estavam conscientes antes, mas que agora, através do transe, sentiam mais. Alguns receberam conselhos de como poderiam diminuir seu padecimento. `Alguém, sofrendo de dores crônicas nas costas, teve a impressão de que o aconselharam a mudar a postura do corpo, que estava errada. Outros receberam conselhos psicológicos sobre a causa dos seus problemas e como curá-los. Felicitas contou que certa vez, durante uma sessão, um médico alemão sentiu-se sendo levantado do chão pelo urso e colocado no alto de uma árvore, de onde pôde ver sua própria clínica. E ali, pela primeira vez em sua vida, ele notou como era pesado e difícil o trabalho e a responsabilidade dos enfermeiros.
Fizemos uma viagem pelos mitos do urso, pelo reino daquele grande animal protetor de que tanto falam os povos nórdicos em suas lendas. Praticamente todos os participantes passaram pelas mesmas experiências, mas mesmo assim essas não são consideradas como relevantes pela ciência ocidental, pois não podem ser comprovadas cientificamente.
Para mim, o mais importante é saber o que vai acontecer comigo daqui para a frente. Tenho agora a absoluta certeza de que nem tudo no mundo é como parece - uma certeza que continua crescendo. Estou sozinho no meu mundo espiritual, mas não sem companhia -uma companhia invisível para os outros. Em todo caso, sei agora que a minha existência tem raízes numa realidade profunda.
publicado por Pai Pedro de Ogum às 12:45

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