Terça-feira, 24 de Janeiro de 2006

Sagrado e profano no universo mágico religioso das plantas rituais afro-brasileiras

 (Conferência  - XXIII Encontro Cultural de Laranjeiras
Laranjeiras, Sergipe)
1999 
 

Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo
    
  Letra E maiúscula floridasta comunicação não pretende fazer uma abordagem teórica sobre o sagrado e o profano, já bastante trabalhado por estudiosos que se debruçaram sobre o assunto e que, de certa forma, influenciaram minhas posições sobre essa matéria cheia de desvios intrigantes, levando o pesquisador a pensar e repensar quando da análise dos fatos que os envolvem.


Seguindo o pensamento de Durkheim (1989), os seres sagrados são por definição seres separadosAs coisas sagradas são aquelas que os interditos protegem e isolam.
Em se tratando de planta ritual nos sistemas de crenças afro-brasileiras, tal separação dá-se com o deslocamento de sua relação com outros sistemas e pela imputação à ela de um valor sacral, valor este que será legitimado por meio de ritos próprios, os quais caracterizarão seu papel dentro do sistema de crenças afro-brasileiros.

Esse deslocamento inserirá cada planta no universo mítico e é com base nesse universo que se consolida todo o conjunto rirualístico. Trata-se de um ato cosmogônico conforme Mircea Eliade (1986), através do qual esse universo mítico é criado, e a ritualização que a ele corresponde, sempre que repetido, vai simbolizar o ritual da cosmogonia.  Assim, são divindades do panteão afro-brasileiro relacionadas a esse universo mítico que vão administrar esses objetos sagrados que são as plantas.

O conjunto de ritos a serem rigorosamente observados dentro do sistema religioso visam separar o sagrado do profano, impedindo a invasão de seus domínios, visto que as mesmas plantas consagradas aos deuses fazem parte, também, do sistema de vida cotidiana dos envolvidos com tais sistemas de crenças.

A não observância de certos preceitos religiosos relacionados ao sagrado por meio de atos considerados de profanação, segundo o sistema de crença em estudo, pode desencadear aos protagonistas punições de toda ordem, como até mesmo, doenças e morte. Tais punições que podem estar na esfera do sagrado, do mundo sobrenatural, podem ser, também, relacionados com o universo profano dos homens que deliberadamente impõem sanções que o próprio sistema determina, além da reprovação pública a que está o autor da profanação exposto, visto que éste público que o acusa se sente ferido em seus sentimentos e respeito para com o sagrado.

Embora o sagrado se oponha ao profano, é difícil desassociar um do outro, pois estão sempre próximos, como supõe Durkheim (1989: 363) (...) um supõe o outro.  Mas, eles não deixam de ser diferentes e, ainda que seja apenas para compreender as suas relações é necessário distingui-los

Mary Douglas (1966:44) cita o valor médico de um culto ioruba de uma divindade da varíola, em que é recomendado o isolamento do doente e que este deve ser tratado por um sacerdote que já tenha contraído a doença, tornando-se, assim, imune.
Acrescenta, ainda, que os iorubas usam a mão esquerda para lidar com a coisa "suja", por que a mão direita é usada para comer, pois sabem do risco de contaminação se esse costume não for observado.

Ao serem analisados os procedimentos acima referidos, julgo ter deparado com uma situação ambígua, em que a sujeira pode ter uma relação com o sagrado, entendida também como impureza, assim como o não usar a mão direita ter relação com a higiene, quando as pessoas envolvidas estariam se protegendo de contaminação não usando para comer a mão que tocou a "sujeira", o que sugere um ato de cunho profano envolvido com o suposto sagrado.  Então, pergunta-se: para que lado fica o ato de não usar a mão direita para não se contaminar?

Mircea Eliade (1996:27) diz que a experiência profana jamais se encontra em estado puro.  Seja qual for o grau de dessacralização do mundo a que tenha chegado, o homem que optou por uma vida profana, não consegue abolir completamente o comportamento religioso (...) a existência mais dessacralizada conserva traços de uma valorização religiosa do mundo.

Há de se considerar o momento exato em que o sagrado e profano se processam, uma vez que para tal há sempre um ritual.  Ao se adicionar uma planta condimentícia durante a preparação de uma comida, há todo um ritual necessário a ser obedecido para que o resultado desejado seja alcançado, tal como a preparação prévia desse condimento e o momento exato de ser incorporado à comida em elaboração, tornando-se um ato sagrado para aquele que a prepara.  A relação desses procedimentos com o sistema de vida cotidiana mostra o estreito laço que une o sagrado ao profano, uma vez que a preparação da comida com a mesma erva condimentícia pode estar relacionada ao sistema religioso, onde a ritualização dos atos estão na esfera do sagrado com a celebração e consagração da comida ritual ao seu deus.

Estão aí momentos diferentes, relacionados a sistemas diferentes, impondo seus próprios ritos, de onde se apreende que, embora os processos de preparação da comida sejam os mesmos, o momento não o é, pois estando relacionados a sistemas diferentes, a sacralização dos ritos se faz em esferas diferentes.

O sistema religioso poderá entender que a relação do ritual de preparação da comida dentro do sistema de vida cotidiana seja um ato profano, segundo o pensamento religioso que o governa, mas aqueles que a preparam emprestam ao ritual um caráter de certo modo sagrado também, visto que dependeu dele o resultado almejado, qual seja, a boa qualidade da comida elaborada, segundo os preceitos determinados por aqueles que detêm o conhecimento da arte de preparar aquela comida.

O especialista da comida profana é colocado em pedestal de onde é ouvido e respeitado por seus "discípulos". É sagrado o que ele diz.  A não observância de suas determinações não implica em punições propriamente ditas aos desobedientes, mas em censuras pelos grupos que os cercam, uma vez que, o que o especialista diz torna-se sagrado para aqueles que o tem como mestre.

No sistema religioso, através do universo do sobrenatural, é a divindade que está no controle de tudo, ditando normas que o homem sacraliza por meio de ritos próprios, cuja inobservância nos momentos sagrados dos rituais de preparação das comidas propiciatórias, implica em punições já acima referidas.

No sistema de vida cotidiana, preso ao mundo terreno, o ritual é administrado pelo próprio homem, enquanto no sistema de crenças ora em estudo, preso ao universo sobrenatural, o ritual é administrado pelo divino, que podem ser deuses ou entidades divinizadas, que um dia pertenceram ao mundo dos homens.

Transportando estes pensamentos para os banhos rituais, de valor significativo nos sistemas de crenças afro-brasileiros, onde as plantas desempenham papéis específicos, segundo as diferentes finalidades para os quais são preparados, tais banhos, investidos de valor simbólico, de caráter sacral, vão atender, também, ao ato de limpar.  Este ato pode ao mesmo tempo atender a necessidade de limpeza do corpo, entendido como um ato higiênico, a fim de preservar a integridade física, assim como uma limpeza espiritual de purificação, determinados para diferentes momentos sagrados da vida religiosa, tal como durante os processos de iniciação, nas lavagens de contas, etc.  Neste caso deparamos com a mesma idéia de que o sagrado e o profano se encontram em territórios  limítrofes, onde se confundem, chegando a se supor uma certa ambigüidade, que sugere interpretações contraditórias.

É importante se considerar que o banho ritual às vezes não compreende uma forma de lavagem de corpo sugerindo ato higiênico. Na cerimônia de lavagem da cabeça durante o período de iniciação religiosa, o iniciante é submetido a um ritual em que sua cabeça, inclinada sobre uma bacia grande, é lavada com sabão africano e água, onde são misturadas folhas trituradas.  Enquanto suas mãos e braços são lavados, vão sendo formulados votos para "que as mãos só toquem em coisas boas, não em coisas más"; para lavagem dos pés, são feitos votos para "que os pés não pisem em nada que seja mau".  Todos esses procedimentos a serem obedecidos durante o banho ritual, têm o valor simbólico de purificação.

Os banhos com plantas aromáticas, conhecidos por banhos de cheiro, são comuns na vida privada de indivíduos, especialmente daqueles envolvidos com a vida religiosa dos sistemas de crenças afro-brasileiros, comum no norte do País, como foi estudado em Belém do Pará por Napoleão Figueiredo (1983). Segundo o autor, o banho de cheiro envolve dois aspectos: um popular com ocorrência no período de festas juninas e natalinas, e outro, cerimonial, com incidência nos rituais de Batuque, de Umbanda e de Jurema.

O banho de cheiro popular, conforme o autor citado acima, não obedece um receituário estabelecido.  São raízes, folhas, cascas, flores e resinas fazendo parte da formulação que, segundo a tradição popular, tem o poder de trazer felicidade, destruir azar, afastar mau-olhado, etc.  Na preparação de tais banhos, são recomendados alguns procedimentos, dentre eles o de macerar muito bem, colocá-lo no sereno, tomar o banho à meia noite e não enxugar o corpo com toalha.

Ao se analisar tais procedimentos percebe-se que os efeitos almejados pelos usuários do banho de cheiro popular estão relacionados a um conjunto de crenças voltados ao sobrenatural também, porém, de cunho profano, cujos ritos o próprio povo cria e recria sempre que há uma oportunidade de repeti-los.  Neste caso, tanto os ritos de preparação dos banhos como seu uso, são sacralizados por aqueles que admitem sua eficácia devido à observância de todos os preceitos recomendados. Seria sacralizar uma crença num sobrenatural desvinculado de qualquer sistema religioso.

Napoleão Figueiredo também cita outros tipos de banhos rituais preparados com plantas aromáticas, chamados ariachés e amacis usados no Batuque, Jurema, Umbanda e variantes, na cidade de Belém. Segundo o autor, na obra citada acima, ariaché é banho feito com plantas aromáticas, usado nas cerimônias de lavagem do corpo, da casa, da guma, dos otás, das guias, dos búzios e dos amuletos.  Usado na lavagem de limpeza, proteção, descarga ou como atrativo. No corpo, é usado dos ombros para baixo, enquanto as guias, os otás e os búzios são mergulhados no banho durante dezesseis dias.  Os amacis  são usados para a lavagem da cabeça, nas cerimônias de feitura, confirmação e fortificação dos filhos e filhas de santo.

Napoleão Figueiredo, na mesma obra citada, comenta que as forças do Universo, manipuladas por especialistas que se utilizam de rituais exteriorizados por meio de cerimoniais complexos, definem os métodos pelos quais tais forças se colocam ao alcance do homem, a fim de satisfazer seus desejos. A competência para desencadear essas forças está colocada nas mãos de especialistas que trabalham com o "não natural".

Entende-se, portanto, que ao se lidar com o "não natural" ou "sobrenatural", não relacionados diretamente a sistemas religiosos, mas simplesmente à crença em forças ocultas, se é assim que se pode expressar, depara-se, também, com situações ambíguas.  Pode-se, assim, entender por que a ritualização na preparação e uso do banho aromático popular pode ser apenas uma prática de hábito rotineiro, em que as pessoas o fazem com freqüência, repetindo o ritual mecanicamente.  Visto por este ângulo, a sacralização se confunde com o profano ao se relacionar o banho aromático ao sistema de vida cotidiana, podendo ser entendido tanto como prática sacralizada, como profana.
 

Referências bibliográficas

Douglas, Mary. Pureza e perigo. São Paulo, Perspectiva, 1966 (Coleção Debates -    Antropologia)
Durkheim, Émile. As formas elementares de vida religiosa. São Paulo, Ed. Paulinas,1989.
Eliade, Mircea . O sagrado e o profano  -  A essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1992.
Figueiredo, Napoleão. Banhos de cheiro, ariachés & amacis.  Rio de Janeiro,  FUNARTE/INF, 1983.
Verger, Pierre. Bori, primeira cerimônia de iniciação ao culto dos òrisà nagô na Bahia, Brasil.  In: Olóòrisà  -  escritos sobre a religião dos orixás.  Coordenador: Carlos Eugênio Marcondes Moura. São Paulo, AGORA, 1981. 

publicado por Pai Pedro de Ogum às 09:13

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